quinta-feira, 28 de abril de 2011

Vazio de gestos nossos.

O relógio simetricamente colocado na parede de cor amarela. O lustre impecavelmente limpo, reluzindo, ofuscando meu olhar de peixe morto. Cada móvel me olhava, cada móvel expressava sua gélida existência. Dia chuvoso.

Nas noites de lua cheia o pensamento deixa ser acalentado pela vulnerabilidade; já em dias chuvosos a maldita inquietude me apavora, cria realismo em meu ser. Ser íntimo, ser eu. E então para me redimir do meu momento de dispersão, cravo meus olhos num quadro, obra de arte dependurada na parede amarela, amarelada.

Coloquei-me a olhar para os olhares que se escondiam. Naquela tela de arte uma atmosfera atrativamente excitante e que me incomodava aberrantemente. Passei uns três dias (e noites talvez) a sentir que palavras queriam ser escritas, cuspidas, enfim... queriam existir para fora do meu eu. Coisa essa que me tirou o sono.

Uma luta! Isso! Seria uma luta contra eu mesma! É. Uma luta contra meus próprios olhos. Teria de educá-los, de não ver àqueles olhos com todo o meu coração. Luta suicida, luta sem sangue, coisa que me rasga por dentro, dilacera carne minha, tinge-me de merda, mel e sal, abafa-me a vontade de dar flores, arranca meu jardim pelas raízes.

_ Laura! Menina! Tire esses olhos desse maldito quadro! Parece até querer entrar nele!Passe já para o quarto!

E eu era apenas uma criança tentando entender as coisas do mundo.

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